CARTA DE UMA ESTUDANTE AO GOVERNO PORTUGUÊS

Caro responsável pelas decisões referentes à educação em Portugal, não sei o seu nome, é verdade. Não acho, no entanto, que isso seja a...

Caro responsável pelas decisões referentes à educação em Portugal,

não sei o seu nome, é verdade. Não acho, no entanto, que isso seja algum entrave, uma vez que também não sabe o meu e que pouco lhe interessa. Pois bem, novamente, é mútuo. O seu nome pouco me interessa. O que me interessa são as decisões que toma, quer seja sozinho, quer seja com outros tantos deputados, e que dizem respeito ao funcionamento da educação do nosso país. Sabe o que é, é que tem parte do meu futuro nas mãos. E quando digo o meu, digo o de outros tantos adolescentes por este país fora.

Escrevo-lhe porque me está a preocupar. De verdade. E não é de agora, caro deputado, não é de agora. A minha preocupação surgiu quando o vi colocar provas de aferição nos planos escolares de alunos do 2° ano, a minha preocupação surgiu quando o vi retirar os exames de 6° ano, a minha preocupação surgiu quando o vi retirar o exame de inglês aos alunos de 9° ano. Para outros tantos foi um alívio, é verdade. Mas diga-me, senhor deputado, as decisões e as leis são tomadas por serem o melhor para o povo ou por serem aquilo que o povo quer ouvir? Porque é claro que a grande maioria dos estudantes quer descartar-se da possibilidade de ter uma prova global, no final de ciclo, a influenciar-lhes 30% da nota! Aliás, quem é que não gostaria de se livrar de toda a pressão de exames e de ter que saber toda a matéria que se aprendeu em vários anos já passados? Mas, novamente, diga-me, senhor deputado, preferia que, no 9° ano, os seus filhos, netos, o que preferir, enfrentassem o exame sabendo que é apenas uma prova, semelhante aquelas que já realizam ao longo do ano, ou que o medo os apavorasse, por não terem enfrentado o exame pela primeira vez no 4° ano? Sabe, esta conversa dos exames tem muito pano para mangas. Até porque opiniões se dividem e muita gente até concorda com as medidas adotadas. Eu não, lamento. Não entendo o porquê de não podermos sujeitar crianças do 4° ano a um exame, mas podermos sujeitar as do 2° a uma prova de aferição. Não entendo o porquê de um exame de inglês, que atribuiria aos alunos um certificado da língua, ser retirado aos alunos de 9° ano. Não entendo a aplicação de provas de aferição no 5° ano, uma vez que o seu conteúdo será igual a qualquer teste final, a menos que se avaliem de novo as competências do 1° ciclo. Não entendo a retirada dos exames de 6° ano. Não entendo as provas de aferição no 8° ano. Mas, acima de tudo, não entendo o porquê de quererem alunos deeciclos fechados na escola até às 19h30.

Caro deputado, por lapso, não o referi no início desta minha carta, mas tenho 15 anos, estou no 9° ano. O ano final. O ano da mudança. A derradeira barreira entre "estudar porque tem que ser" e "estudar porque isto é o que eu quero para o meu futuro". Portanto, estando no ano final do 3° ciclo, poderia simplesmente manter-me indiferente a esta proposta, uma vez que não me afetaria. Mas não sou capaz. Não sou capaz porque, mesmo saindo da escola às 17h15, sinto que o meu dia não tem horas suficientes. Imagine-se agora se saísse às 19h30! Vou-lhe contar a minha rotina, como exemplo, e esperar que assim perceba melhor o porquê desta minha revolta e indignação.

A minha última aula do dia termina às 17h15. Tenho que ir a correr ao cacifo, arrumar um caderno ou outro para tirar algum peso à mala, que chega a pesar 10kg, mas isso é história para outra carta, e depois ir a correr para a paragem. O autocarro não tem bem hora certa. Ora está lá às 17h15 e rapidamente se vai embora, ora chega já perto das 17h30. Imagine lá qual não é pressão! Geralmente, chego a casa pouco antes das 18h. Tenho que lanchar, obviamente, e depois apodero-me da mesa da sala, espalhando por lá livros e cadernos. Há trabalhos de casa, há resumos para fazer, há apresentações para preparar, há testes para os quais tenho que estar preparada. Como qualquer pessoa da minha idade, também não consigo estar esse tempo todo concentrada a 100%. Já passei várias horas a ter aulas ao longo do dia e chegar a casa e ter que prolongar todo esse estudo também se torna cansativo. Além disso, há sempre o telemóvel, as sms dos amigos e, além disso, quando o cérebro já está cansado de matéria, até uma mosca se torna interessante. Ainda assim, em dias bons, costumo despachar tudo o que é referente da escola antes de jantar. Depois? Pois bem, depois de jantar, tomo banho, vejo um pouco de televisão. No entanto, por mais que passe uma ou duas horas deitada no sofá, com o computador no colo e o telemóvel na mão, não consigo descansar. Porque não são essas pequenas horas que vão compensar todo o cansaço que nove horas na escola mais três ou quatro horas de estudo em casa me provocam.

Espero que tenha entendido um pouco melhor o porquê desta minha carta. Mas há mais, caro deputado. Há muito mais. Não sei se reparou, mas num dia normal, mal consigo passar tempo com a minha mãe e irmã. Quanto mais sair um pouco de casa, passar algum tempo com amigos. Pois, porque é suposto os adolescentes também terem uma vida social, certo? Não estarem fechados em casa, com os olhos postos na televisão ou no computador. Era o ideal não era? Então diga-me, quantas horas é que trabalha por dia? As comuns oito com uma hora de almoço, presumo. Se calhar até menos! Então imagine se o fechassem no seu local de trabalho durante onze horas com míseras pausas que nunca parecem suficiente. É doloroso, não é? Então imagine se, a par dessas onze horas de trabalho, tivesse que trazer trabalho para casa. Consegue imaginar? Mais ou menos catorze, quinze horas de trabalho? Se um dia tem vinte e quatro horas e passasse quinze a trabalhar, sobrar-lhe-iam apenas nove horas. Que engraçado! Para um bom descanso e para mantermos saudável o nosso sistema nervoso, é recomendado que durmamos, em média, 8 horas. Sobra então única e exclusivamente uma hora! Mas uma hora chega, não chega, senhor deputado? Quer dizer, se chega para um adolescente, de certo chegará para si também.

Verdade seja dita, se isto não chegou para o fazer perceber, não sei o que chegará. Espero que tenha compreendido que a minha revolta e indignação não significa que seja uma adolescente preguiçosa e que anda na escola por andar. Bem pelo contrário, digo-lhe já. Gosto da escola. Gosto de aprender mais e mais. Mas também gosto de ter o meu tempo. Gosto de estar com os meus amigos. Gosto de sair. Gosto de estar com a minha família. Gosto de descansar. Gosto de fazer as minhas refeições com calma. Gosto de dormir horas suficientes. E calculo que o senhor goste também. E calculo que com a minha idade também gostaria.

Caro deputado, termino-lhe esta carta com um pedido: não tome decisões nem apresente propostas a pensar naquilo que o povo gostaria de ouvir. Pense naquilo que o povo precisa, pense naquilo que lhes fará bem. E não pense só uma vez. Pense como seria se fosse no seu tempo. Pense como seria se fosse com os seus filhos.

Com todo o respeito e com os melhores cumprimentos,

eu - apenas mais uma estudante. 

You Might Also Like

0 comentários

O teu comentário é bastante importante para o crescimento do Bookaholic e para que eu saiba o que achas dos conteúdos e o que posso melhorar.

Por favor, deixa também o link do teu blogue quando fizeres um comentário, de maneira a que eu possa também visitá-lo. Não te esqueças também de preencher a opção 'Notificar-me', para que possas saber assim que eu responder.

Muito obrigada pela tua vista!